A negação dos quadrinhos

Sam Wilson, o novo Capitão América

Sam Wilson, o novo Capitão América

Com as recentes mudanças de personagens icônicos da editora Marvel Comics, que anunciou a criação de uma personagem feminina Thor, devido ao clássico personagem não ser mais digno de empunhar o Mjolnir e Sam Wilson (Falcão) sendo o novo Capitão América, já que Steve Rogers depois da retirada do soro do super-soldado envelheceu 60 anos. Essas mudanças acabaram causando as mais diversas reações nos leitores de quadrinhos, mas não é novidade essas mudanças ocorrerem, vire e mexe algo desse tipo acontece no universo dos quadrinhos. Porém o que realmente chama atenção é o motivo dessas mudanças acontecerem,
é de conhecimento que os quadrinhos no seu inicio eram conhecidos por representações racistas e sexistas, com uma representação estereotipada do negro, e onde mesmo a Mulher Maravilha tendo praticamente os mesmos poderes que o Superman e tinha que ser mostrada limpando a casa e ter a sua sensualidade e beleza sendo bastante exploradas durante toda a sua trajetória, preconceitos marcados da época, mas que refletem até hoje.

Desde seu inicio os quadrinhos são feitos em sua maioria por homens brancos, e isso diz muito quando se fala nessas representações em que a maioria dos personagens acabavam sendo homens brancos e mulheres sensualizadas, mas foram dois homens brancos que começaram a mudar um pouco esse panorama, Stan Lee e Jack Kirby tinham vontade de fazer um mundo dos quadrinhos mais parecido com o real e criaram personagens que fugiam do estereotipo estabelecido na época, dentro do possível claro, porque sem contar o conservadorismo da época, os quadrinhos eram conhecidos como uma mídia “subversiva” – algo parecido com o que acontece com o vide-game atualmente –  foi aí então que surgiu personagens como o Falcão, Pantera Negra, Mulher Invisível e os X-Men que traziam o debate da opressão sobre as minorias para os quadrinhos e que logo depois trouxeram talvez a personagem feminina mais conhecida da Marvel, a Tempestade, uma rainha africana. E com o tempo outros personagens foram criados por outros roteiristas como Luke Cage, Blade, James Rhodes que por um curto tempo foi o Homem de Ferro e também por outras editoras como o John Stewart que para muitos é o verdadeiro Lanterna Verde, Senhor Incrível, Ciborgue, Amanda Waller e Super Choque da DC Comics, Spawn e Shadowhawk da Image Comics. E atualmente mais mudanças como essas últimas estão mais comum com personagens icônicos, temos o afro-latino Miles Morales que utiliza o alter ego de Homem-aranha, após a morte de Peter Parker no universo Ultimate da Marvel, e o brutamonte Wolverine e o clássico personagem da era de ouro Alan Scott são homossexuais em universos alternativos. Esses poucos personagens representaram uma pequena mudança, claro que faltaram vários outros personagens, mas mesmo se listasse todos, a quantidade de personagens homens e brancos que existem no mundo dos quadrinhos ainda seria maioria, e por mais que existam mais super-heróis negros e super-heroinas do que antigamente, ainda os vemos na maioria das vezes em segundo plano como sidekicks/ajudantes  sem grandes destaques, o que é o caso de Sam Wilson, o Falcão, desde sua origem é retratado como o ajudante do Capitão América, sendo assim não só a quantidade de personagens não sendo o fator mais importante, mas também como eles são apresentados para o público. Agora com Sam Wilson sendo o Capitão América a Marvel coloca o símbolo do patriotismo americano, um personagem negro – o que não é a primeira vez que acontece – representando uma nova fase para o Capitão América, podendo ser mais uma vez a chance de quebrar o estereotipo, é esperar pra ver. No entanto não duvido que futuramente vejamos Steve Rogers novamente como Capitão América.

Um número interessante é a crescente quantidade de leitoras chegando a ser quase metade do público – cerca de 46,67 % – , e com isso se espera aumentar a preocupação das editoras em retratar de melhor forma as personagens femininas para assim quebrar cada vez mais o estereotipo sensualizado e inferiorizado da mulher e criar roteiros melhores para elas. Um exemplo recente é a nova Miss Marvel, Kamala Khan é uma garota muçulmana nascida em Nova Jersey, à personagem foi criada por uma muçulmana que é atualmente editora da Marvel Comics, e é escrita e desenhada por mulheres com histórico em escrever personagens muçulmanos. O que mostra que as editoras estão abertas a mudanças e as mulheres estão entrando no mercado, apesar de que a grande maioria do mercado sejam homens e ainda vemos representações machistas das personagens.

A nova deusa do trovão, Thor

Thor, a deusa do trovão

As editoras quando planejam representar as minorias em seus personagens, grande parte motivada pela questão financeira antes de qualquer outro motivo e com as quedas representativas de vendas nos últimos anos devido à pirataria e o desinteresse do público, agora elas investem cada vez mais no mercado digital, que parece ser a saída para a pirataria. Investir em personagens de outras etnias e gêneros é a saída para um novo interesse de público que quer algo diferente do proposto em todos esses anos e a representação de um mundo mais parecido com o nosso nos quadrinhos, entretanto de nada adiantará se não tiver roteiros interessantes ao leitor, porque chamar a atenção do público apenas pelo “diferente” sem apresentar nada de atrativo ao leitor chega a ser um desrespeito. Outra questão são as mudanças “apadrinhadas” onde os personagens são criados apenas para chamar o público e são ligados a um personagem original para ganhar destaque, o que parece ser o caso da nova Thor, que mesmo se mostrando futuramente uma personagem com um roteiro atrativo ao leitor, ainda estará fortemente ligada ao personagem original que é acentuado por ser uma personagem feminina derivado de um personagem masculino e assim reforçando a ideia de sidekicks/ajudantes femininas, sem contar que o Thor ainda continuará existindo no universo da editora sem a alcunha de deus do trovão (vai entender), o que fará a aceitação da personagem ser ainda mais difícil, e podendo acabar com a personagem voltando ao lugar comum, sendo jogada num limbo onde estão vários outros que tiveram trajetória semelhante, e o velho Thor voltando a ser o deus do trovão da editora. Entretanto não deixa de ser uma tentativa interessante de colocar uma personagem feminina em destaque, é torcer que a personagem agrade ao público e ganhe o seu espaço, mas é difícil acreditar quando tem tanta coisa contra a personagem sem mesmo estrear.

A solução parece criar novos personagens com novas histórias, porque os personagens clássicos sempre acabam voltando de alguma forma, afinal alguém imagina o mundo das HQs sem o Batman de Bruce Wayne mesmo que futuramente a DC resolva fazer um novo personagem negro por mais que a história dele seja boa? Ou será que o novo substituiria o clássico de vez? Ou teríamos dois Batmans? Afinal “um Batman negro só pode ser cota, daqui a pouco veremos Batman gay, já pensou deixar a Mulher-Gato na mão? Eu não deixava.”, não duvide se você ver algum comentário desses se essa mudança realmente acontecer. Termos personagens femininos, de outras etnias, homossexuais, transexuais (esses ainda não vi) é totalmente normal, afinal temos pessoas assim na nossa sociedade, e não tem por que esconder eles nos quadrinhos. Hoje as editoras se preocupam em mudar problemas que estão na sua origem devido a preconceitos, e procura na criação de universos alternativos terem mais liberdade e deixando o universo a parte para os personagens originais com suas histórias clássicas e intocáveis para muitos fãs, mas o que surpreende é que as recentes mudanças são do universo original da Marvel e que a editora está buscando um meio termo para agradar seu público. Então deixemos de mimimi e vamos ver Sam Wilson e a nova Thor fazerem seus trabalhos e que a DC corra atrás agora.

A história dos quadrinhos já mostrou que não precisa ser nenhum ativista – e que não tem problema também ser um – de movimentos dos mais diversos possíveis para se criar um personagem que quebre o estereotipo, e que basta contratar mais artistas de qualidade, de outras etnias e gêneros e que principalmente criem personagens porque é lógico termos personagens de outras etnias e gêneros e não uma obrigação, e assim veremos esses personagens mais bem representados e as editoras irão satisfazer o seu público, que quer um produto que represente mais o mundo que vive e de qualidade melhor. Não quer dizer que não queremos mais ver um Batman, ou um Homem-aranha, afinal são ícones da cultura pop e estarão fazendo constantemente parte do nosso mundo, mas será que não temos espaço para novos personagens e novas histórias?

Não à toa o cinema e a TV foram os primeiros a ficarem marcados por essas mudanças em suas adaptações dos quadrinhos, por serem mídias que estão um pouco mais a frente nesses quesitos e assim pedem por mudanças mais imediatas. Não se pode negar que o mercado está pedindo por uma mudança tanto no conteúdo como quanto produto e que as editoras estão tentando entre erros e acertos encontrados, porém essas mudanças precisam ser mais bem pensadas e feitas com um maior cuidado.

Fontes:

Entrevista da desenhista brasileira Cris Peter sobre a representação das mulheres nas HQs, que já trabalhou para a Marvel e DC, e foi indicada ao premio Eisner.

http://crispeterdigitalcolors.com/2014/03/10/entrevista-que-jose-abrao-fez-comigo-para-a-materia-precisamos-falar-sobre-peitos-e-quadrinhos/

Relação da mulher negra e os quadrinhos

http://ladyscomics.com.br/a-mulher-negra-e-os-quadrinhos

Panorama dos personagens negros no Brasil

http://www.revistapontocom.org.br/entrevistas/o-negro-nas-revistas-em-quadrinhos

Histórico do negro nos quadrinhos

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=297

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=300

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=303

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=306

Extra: Vale a leitura dessa monografia sobre a representação feminina nos quadrinhos usando como base a Mulher Maravilha

http://bdm.bce.unb.br/bitstream/10483/4234/1/2012_AnaFlaviaPereiraAndrade.pdf

 

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